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Convento de São João Evangelista - Igreja -Cobertura de Ogivas 1490

CONVENTO DE SÃO JOÃO EVANGELISTA OU CONVENTO DOS LOIOS

Igreja do Convento de São João Evangelista

De fachada axial voltada ao ocidente, sofreu neste corpo modificações relativamente importantes que alteraram a traça primitiva, como o enxerto do coro, que formou um pórtico de vastas proporções e a empena, seguramente construída depois do terramoto de 1755, que atingiu com certa gravidade todo o edifício. Estas obras, de certo modo vultuosas e de épocas diferentes, que afectaram o aspecto exterior, severo e típico da arte ogival quatrocentista, não atingiram gravemente e estrutura dos alçados e do sistema de cobertura, assim como respeitaram a planta gótica da igreja que previa, no desenho original, além do presbitério, as duas capelas laterais destinadas a membros de família do fundador - a do cruzeiro e a do primeiro tramo sul da nave - , onde tiveram jazida irmãos do 1.° Conde de Olivença.
 
O frontão, triangular, amparado angularmente por dois contrafortes de granito, dispostos obliquamente foi, nos primeiros anos do reinado de D. José I, envolvido por volutas e fachos e o tímpano ornamentado pela águia de S. João Evangelista, símbolo da Ordem.
 
Larga janela de remate envieirado e de jambas emolduradas, de estuque, que concede iluminação ao coro alto, tem sotoposto discreto nicho gótico, de molduras esmagadas, recentemente posto a descoberto e onde se venerava, ao que se admite, uma imagem padroeira.
 
O coroamento dos prospectos laterais, em principio revestido de cortinado de ameias do tipo chanfrado, idênticas às da Igreja Real de S. Francisco, sofreu quase total mutilação, decerto imposta na profunda reforma de 1757, como se lê numa cartela aposta na face posterior da empena, que as obras recentes não conservaram. Outra data, moderna, relativa a beneficiações existe na platibanda da fachada sul: 18-10-1856. Dois únicos merlões de alvenaria subsistiram ao grande sismo e são visíveis no reverso da fachada principal, encostados aos pináculos flamantes, barrocos e sobrepujantes ao friso trilobado, gótico, de tijolo vermelho que circunda em cordão ininterrupto todo o edifício incluindo o corpo absidiolar.
 
É o portal da igreja um belo, embora tardio exemplar do gótico flamejante, com gablete de pedra, antecedido por arco abatido apoiado em feixe de colunas ornadas de capitéis naturalistas, manuelinos, que forma o pórtico do sub-coro, lançado em abóbada de nervuras estreladas, com toros emoldurados e de chaves armorejadas, que nasce em delgados coluneis graníticos. Cinco arquivoltas revestidas de pequenas flores estilizadas, abertas em forma de leque e com capitéis de granito muito frágil, de ornatos também vegetalistas, recebem os fustes de mármore branco, de Estremoz, rompentes de bases flordelizadas dispostas em andares, oferecendo, no conjunto, profundas afinidades com o portado axial da Sé de Évora, protótipo donde saiu o tipo depois generalizado na região. Suspenso na parede do lado do Evangelho, ergue-se formoso baldaquino de pedra de Ançã, adosselado e com armorial dos Melos, apoiado em esbelta coluna marmórea e de inscrição lapidar, onde o ilustre senhor D. Álvaro de Portugal mandou gravar para a posteridade os insignes feitos de armas do glorioso capitão de Tanger D. Rodrigo de Melo, seu sogro e fundador do templo. Esculpida em caracteres góticos, quadrados, reza assim a eloquente crónica medieval, que define bem o espírito e psicologia humana da época: 
 

Ê LOUVOR DE NOSO SNÕR DS E DO APOSTOLO SÃ JOHA EVAGELISTA EDFICOU E DOTOU ESTE MOSTEIRO / O MANIFICO SNÕR DÕ RODRIGO DE MELO CÕDE DOLIVÊCA BISNETO DE VASCO MIZ D MELO Q DEU A VIDA / AO MUY VRTUOSO SNÕR REY DÕ JOÃ O PRIMEIRO E NETO DE MÃTI AFÕ DE MELO O VELHO Q GRANDEMÊTE AJUDOU A / GANHAR ESTE REGNO AO DITO SNÕR REY E F.O DE MATI A.O DE MELO Q BÊ E LEALMÊTE SÊPRE SVIO E FOI O DTO CD CRIADO / DO MUYTO ESCLARECIDO SNÕR REY DÕ A.O O QUITO E R B (45) AÑS O SRVIO CÕ SUA PESOA E GÊTES MUY GRÃDEMÊTE E EN TODAS / AS PASAGS Q O DTO SENÕR REY EM AFRICA FEZ SÊPRE Q ELE FOY E TOMADA A CIDADE DE TÂGER LOGO LHA ÊTGOU / E O FEZ O PMEIRO CAPITÃ GOVÊNADOR DELA E XIII ANS Q A TEVE OUVE TÃTAS PELEGAS E FEZ TÃTOS / DSBARATOS Ê MOUROS Q MUITO POUCO FICOU DO TERMO DLA QUE NÃ FEZ TABUTÃ A DTO SNÕR REY E ÊTROU CÕ / ELE NOS REGNOS DE CASTELA CÕ TÃTA GÊTE E ASY CORRGIDA Q POUCOS DOS MORES DO REGNO LEVARÕ / MAIS E FINOUSE AOS XXV DIAS DE NOVÊBRO ERA DE NOSO SÑOR JHU SPÕ MIL IIII LXXXXVII AÑS / (1497).

Junto da soleira da porta existem duas campas de mármore com estas legendas: 
 
AQUI JAZ AFOM / SO VAZ ......... / 
 ... CIDADE DÉVORA FALECEO AS 30 DE / JUNHO 
 DE / 1538. (caracteres góticos) e, 
 S. D. I.O GL / RZ... / 

 
(apenas fragmento, de letra latina).
 
No centro do pavimento do alpendre jaz D. Diogo da Anunciação, arcebispo de Cangranor e pregador eminente da Ordem de S. Lourenço Justiniano. A pedra tumbal, lavrada com brasão eclesiástico e a águia bicéfala coroada, envolvido por opulento paquife barroco, acantonado de flores de lis, tem a seguinte inscrição: 
 
AQVI IAZ POR SVA HVMIL- 
 DADE D. DIOGO DA ANNV- 
 NCIAÇÃO JVSTINIANO 
 CONEGO DESTA CONGR- 
 EGAÇÃO BISPO DA SERRA 
 ARCEBISPO DE CRANGA- 
 NOR PROVISOR E BISPO C- 
 OAIVTOR DESTE ARCE- 
 BISPADO FALECEO AOS 
 28 DE OVTUBRO DE 1713 

 
A igreja, que é encerrada por robusta porta almofadada, de dois batentes de madeira do Brasil cravejada de pingentes de bronze, dourados e dos finais do séc. XVII, compõe-se de uma nave de cinco tramos rectangulares coberta de abóbada sem arcos formeiros, assente em nervuras de secção quadrangular ornamentadas de toros. "Os arcos torças são de volta perfeita e, os arranques das ogivas, invulgarmente espessos e resistentes. Cadeias transversais ligam o cruzamento das ogivas ao ponto em que se encontram as nervuras que mascaram as arestas dos panos laterais e, de acordo com a disposição que caracteriza os sistemas de coberturas anteriormente empregados nas igrejas góticas portuguesas, uma cadeia percorre longitudinalmente a abóbada da nave e da capela-mor, desde o reverso da fachada até à chave que reune as ogivas da ábside. Devido à ausência de arcos quebrados, à disposição dos panos laterais e, a vários pormenores decorativos das nervuras, a abóbada da igreja dos Lóios aproxima-se já do sistema de cobertura do gótico final. As chaves não acompanham a inclinação das nervuras e todas estão colocadas horizontalmente.
 
Os capitéis, cuja decoração foi mutilada, são coroados de ábacos octogonais pouco salientes". (Mário Chicó, A Cidade de Évora, 9-10).
 
Esta luminosa e alegre nave está revestida por uma notável composição apainelada de azulejos historiados, representando episódios da vida de S. Lourenço Justiniano, patriarca de Veneza e um dos luminares da Ordem, revestimento que, pelas suas proporções, técnica e desenho se pode considerar um dos mais importantes conjuntos de cerâmica parietal do país. Sete grandes painéis de corte regular medindo cada, 3,70 x 3,00 m. constituem a série, que está assinada e cronografada numa tabela de lisonja no terceiro quadro do lado do Evangelho, a partir da entrada do templo: 
 
ANTONIVS AB OLIVA FECIT - 1711- 
 
Trata-se do célebre pintor de azulejos António de Oliveira Bernardes, decerto dos primeiros de Portugal no séc. XVIII e chefe de uma notável dinastia de artistas do género com oficina em Lisboa. O revestimento, de esmalte branco e ornamentação a azul, nasce do chão do templo e termina no arranque das ogivas, cobrindo, ininterruptamente todos os prospectos laterais e fundeiros da nave, do sub-coro e os vãos exteriores do arco triunfal da capela-mor. Os lanços inferiores, colaterais, deste arco, outrora ocupados por altares foram, também, recobertos de azulejaria moderna, de 1958, copiada dos padrões existentes, feita na oficina lisbonense da Viúva Lamego.
 
Além dos retábulos iconográficos, multiplicam-se as largas barras barrocas de encordoado lobulado, laçaria e flores, albarradas intervalando balaústres e crianças conduzindo à cabeça cestas tulipadas e, ainda, querubins e águias da simbologia monástica.
 
No tramo central do Evangelho, rasga-se a elegante tribuna privativa dos padroeiros (primitivo oratório do quinhentismo), dos fins do séc. XVII e feita à ordem do Duque D. Nuno Álvares Pereira de Melo, que se apoia em balcão de balaústres de secção prismática, de mármore branco suportado por três mísulas de volutas caprichosamente recobertas de ramagens de baixo-relevo. O dossel, de talha dourada e policromada e de pilastras laterais rendadas, esculpidas, ostenta, no eixo do frontão, rompente e amparado por serafins, o brasão coroado dos titulares da Casa de Cadaval. É um bom trabalho de marcenaria artística, do estilo barroco, de c.ª 1700. Sobranceiro, fica o púlpito do pregador, também de mármore lavrado, em forma circular, com base de gomos abertos, radiantes e balaustrada do tipo corrente, peça da reforma do templo do mesmo período.

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